Uma Agulha no Palheiro, p. 176
Quando o tempo está bom, os meus pais vão frequentemente ao cemitério pôr flores na sepultura do Allie. Fui algumas vezes com eles, mas deixei-me disso. Em primeiro lugar, não gosto de ver o Allie num sítio daqueles, rodeado de mortos e de túmulos. Ainda escapava quando havia sol, mas por duas vezes-duas vezes, hem!-, quando estávamos lá, começou a chover. Foi terrível. A chuva caía sobre a sepultura, toda enlameada, sobre a relva e sobre o corpo do meu irmão. Caía em toda a parte. As pessoas que estavam no cemitério a visitar os mortos começaram a fugir para os automóveis. Fiquei varado. Todos podiam abri-gar-se nos carros, abrir os rádios e ir para um sítio decente-todos, excepto o Allie. É uma coisa difícil de suportar. Bem sei que no cemitério só está o corpo, mas, mesmo assim, é difícil de suportar. Quem me dera que ele não estivesse ali. É que vocês não o conheceram. Se o tivessem conhecido, compreenderiam o que eu digo. Como vos disse, ainda escapa quando o sol brilha, mas o sol só brilha quando quer brilhar.
Transcrição em português de Portugal (!) de um dos trechos mais filhadaputamente foda do Apanhador. Valeu por tudo, Salinger.
